quarta-feira, 8 de maio de 2013

O som de nosso tempo...


O SOM DO NOSSO TEMPO...

Que haveria dentro daquela misteriosa caixa preta que o Seixas havia trazido? O Seixas era um rapazinho bem-falante e sabido que, no meu tempo de menino, frequentava nossa casa, não sei com que intenções; imagino hoje que fossem as de namorar minhas irmãs, ou suas amiguinhas, que também nos frequentavam. - Poiso Seixas, todo folgazão, se dispunha naquele momento a fazer com a tal caixa uma demonstração para as meninas. Coloquei-me estrategicamente no meio delas e aguardei os acontecimentos. Com um sorriso gentil e gestos delicados de mágico, o Seixas destampou a caixa, revelando em seu interior um prato giratório e um braço metálico que tinha na ponta unia rodela niquelada e toda furadinha. O gramofone, eu não cheguei a conhecer: uma caixa musical, tendo no anúncio um cachorro branco de cabecinha tombada e orelha atenta, junto a uma enorme cornucópia por onde saía o som. Hoje pode ser visto por aí, como peça de decoração colhida no fundo dos antiquários. Não era, pois, um gramofone, mas seu descendente direto, aquilo que eu tinha diante dos olhos: uma vitrola. Para que o prato girasse, era preciso dar corda — coisa que o Seixas, muito lampeiro, se pôs a fazer: introduziu no costado da caixa uma manivela e começou a girá-la, a cabecinha torta de expectativa como o cachorro do anúncio. Feito o que, colocou um disco no prato, e parecia um dentista ao prender, cheio de dedos, uma agulhinha prateada no lugar apropriado, antes de fazer a geringonça funcionar. O disco era, se me lembro, Os Bar-queiros do Volga. O som saía meio chiado, e de vez em quando engrossava, desafinando, ia se arrefecendo, os barqueiros ameaçados de se afogar para sempre no Volga. — É assim mesmo, é assim mesmo — dizia o Seixas, já meio suado, e voltava a girar freneticamente a manivela, dando à música novo alento. Ao fim, a novidade não fez o esperado sucesso entre as mocinhas. Talvez não apreciassem tanto "Os Barqueiros do Volga", ou a corte que lhes fazia o Seixas. Este, não sei que fim terá levado, com a sua maravilhosa máquina musical. Provavelmente enfiou a vitrola no saco e saiu por este mundo em busca de melhores ouvintes. Em pouco ela estaria obsoleta, substituída por aparelhos mais aperfeiçoados. Gramofone, vitrola, eletrola, para não se falar no fonógrafo, foram se tornando ao longo do tempo designações arcaicas, hoje refugiadas nos dicionários. A bem dizer, os conjuntos de som de nossos dias já não têm designação alguma, acabaram referidos pelos jovens como 50111: — Tenho lá em casa um som que é um barato. — Então vamos lá tirar um som. O que denota que a expressão vai se empobrecendo em favor da música — ou a música, a todo volume, vai acabando com a expressão entre os que não têm o que exprimir. Ouvir música passou a ser uma distração ao alcance de qualquer criança. Existem mesmo, especialmente para elas, toca-fitas portáteis movidos a pilha, que fariam o Seixas se ralar de inveja. Mas criança não tem mesmo jeito. Outro dia o merino chegou em casa esbaforido: — Descobri um som que é um estouro! Vem ver. papai! Vem comigo! Tomou o pai pela mão e o arrastou até a casa de objetos usados da esquina: — Não precisa de ligar na tomada, não precisa de.pilha nem de nada! Compra pra mim! No meio da bagulhada que enchia a loja, o pai deu com uma vitrola daquelas antigas, de dar corda. Exatamente igual à do Seixas. 


 (SABINO, Fernando, Fernando Sabino: obra reunida; edição organizada com a colaboração do autor. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1996. V. 2. Apud Editora Ática Livro: Aulas de Redação, 2011)

sábado, 30 de junho de 2012

Cuidar das línguas

Contato
José Carlos Paes de Almeida Filho 
(
jcpaes@unb.br)




Na sociedade ainda tão desigual (em ênfase e propósitos) em que vivemos consideramos culturalmente importante prepararmo-nos para transitar nos círculos de outras línguas. Fazemos isso aprendendo as línguas de onde queremos circular ou aprendendo línguas-coringa que nos permitem atravessar zonas estrangeiras de muitas línguas distintas. Travessias geográficas e digitais, bem entendido. Para generalizar, enquanto povo, em geral, gostamos de estrangeiros e de coisas estrangeiras. A escolha de uma nova língua para chamar de nossa costuma recair sobre aquelas de maior prestígio, propulsoras de oportunidades, de produção de cultura importante, enfim, línguas de alta milhagem (de ampla circulação) que fazem render muito o esforço e o investimento empenhados na sua aprendizagem. Os idiomas nos impulsionam a celebrar novas relações internacionais.
A situação problemática é a relação dos brasileiros com o inglês. Essa é profusamente matizada desde o amor de entrega inconteste até a repulsa consciente passando pela ideológica não-reconhecida. Trata-se de um caso especial de uma língua hegemônica associada com frequência ao fenômeno do neoimperialismo que as potências anglófonas podem alegadamente exercitar. Essa relação de amor e ódio pode afetar as pessoas, o establishment escolar e universitário preparador de profissionais na área e as políticas públicas governamentais. Essa língua de perigo e êxtase pode ser apresentada sem suas culturas de raiz para abrandar-lhe o veneno (como se possível fosse desembaraçar um idioma de sua base cultural) ou com uma cultura a que poderíamos nos entregar como a um doce vampiro. Vãs polaridades!
Quem de nós fala alguma variante aceitável do Português (além do Nhengatu, claro) sabe que a língua nacional vai longe além fronteiras, mas tem limites. Vai a 8 países da Comunidade de Países de Língua Portuguesa (CPLP) e, crescentemente, a muitas regiões do globo contendo o Português como língua de escolha, como língua de oferta escolar e como língua de herança ou de imigração. Mas não está em todo o globo e nem disseminada em todos os países.
A primeira lição para cair no mundo seria, portanto, “aprenda outras línguas”. O inglês tem sido uma aposta frequente aqui e ao redor do planeta – mas essa é só uma estratégia robusta do que temos de aprender para circular no globo e estar na rede mundial de comunicação. Estou reconhecendo que outras línguas nos servem bem para o protagonismo planetário que os brasileiros perseguem, mas para termos futuro como nação precisamos primeiro valorizar e tornar disponível para ser aprendida/vivenciada a nossa própria língua e cultura(s). O Português pode, sim, alçar voo à galáxia das línguas internacionais de cultura e de ampla circulação. Para isso temos de fazer a lição de casa: criar mentalidade própria que valorize a aprendizagem de nossa língua por estrangeiros cá e lá, e criar um aparato que sustente as ações de inserção do Português no mundo. O Brasil tem um largo potencial para alavancar o Português a esferas nunca dantes visitadas, mas precisa de políticas bem pensadas e coordenadas. Para que as outras línguas sejam aprendidas com um mínimo de sucesso no nosso sistema escolar urge também implantar uma verdadeira política de ensino de línguas de longo prazo. Dela quero mostrar os contornos em nosso próximo encontro. Até lá, leitores! 


quinta-feira, 24 de novembro de 2011

SER FELIZ!?

Ser Feliz...

Ser feliz é sentir o sabor da água, a brisa no rosto, o cheiro da terra molhada. É extrair das pequenas coisas grandes emoções. É encontrar todos os dias motivos para sorrir, mesmo se não existirem grandes fatos. É rir de suas próprias tolices. É não desistir de quem se ama, mesmo se houver decepções. É ter amigos para repartir as lágrimas e dividir as alegrias. É ser um amigo do dia e um amante do sono. É agradecer a Deus pelo espetáculo da vida...
(Augusto Cury)

quarta-feira, 6 de julho de 2011

O Ensino de Língua Estrangeira

Antonieta Celani fala sobre o ensino de Língua Estrangeira

Pesquisadora brasileira alerta para a importância de refletir sobre a prática em sala para substituir definitivamente os "métodos milagreiros"

ANTONIETA CELANI Já baseamos
as aulas em tradução e em gramática,
mas hoje sabemos que cabe ao professor
analisar a turma para atuar bem.
ANTONIETA CELANI  "Já baseamos as aulas em tradução e em gramática, mas hoje sabemos que cabe ao professor analisar a turma para atuar bem."
A formação deficiente de professores em faculdades sem qualidade que se proliferam pelo país e a escassez de programas de Educação continuada bem organizados são apenas dois dos desafios enfrentados no ensino de Língua Estrangeira. Outra questão, somada a essas, torna o cenário ainda mais desafiador: a ausência de uma política clara - em nível nacional -, o que leva a disciplina a uma posição secundária dentro do currículo. Na avaliação da professora Antonieta Celani, fundadora, em 1970, do Programa de Estudos Pós-Graduados em Linguística Aplicada - o primeiro do gênero no Brasil - e atual coordenadora do Programa de Formação Contínua do Professor de Inglês da Pontifícia Universidade Católica (PUC) de São Paulo, existe uma descrença geral no meio educacional em relação à área.
Para ela, no entanto, a situação tende a se reverter com o fim da crença de muitos educadores na existência do que costumam chamar de "o melhor método". "Já baseamos as aulas em gramática e em tradução, por exemplo, mas hoje sabemos que cabe ao professor analisar a turma para atuar bem", afirma. Nesta entrevista, a pesquisadora explica por que acredita que a busca por receitas só mudará com a formação reflexiva - a capacitação que prepara cada docente para avaliar a realidade em que atua e aplicar princípios de ensino e aprendizagem que funcionem para o grupo de estudantes que tem em cada sala de aula.


O que mudou nas aulas de Língua Estrangeira no Brasil desde que o primeiro curso de pós-graduação na área foi criado, em 1970? 
ANTONIETA CELANI Antes, o foco estava no ensino de línguas em si. Hoje, o conceito de linguística aplicada, guarda-chuva do curso que ajudei a criar, é muito mais amplo. Naquele tempo, a preocupação era o que e como ensinar. Hoje há outras perguntas: para que crianças e jovens precisam do Inglês? Por que ele é necessário no currículo?


Por quais concepções de ensino da disciplina o país já passou? 
ANTONIETA Primeiro, tivemos aquela baseada em gramática e tradução. Depois, caminhamos para o método audiolingual, embasado na repetição oral e com orientação behaviorista. Daí em diante, apareceram iniciativas soltas: método funcional (conteúdo determinado por funções, como pedir desculpas e cumprimentar), método situacional (conteúdo pautado por eventos como "no aeroporto", "na loja" etc.). Todos, no fundo, se tratavam de audiolinguais disfarçados, já que a condução em sala também se dava pela repetição. Mais tarde, surgiu a abordagem comunicativa, por meio da qual não se pode usar a primeira língua, só a estrangeira. Essa foi a grande revolução do fim do século 19.


Não houve a influência do sociointeracionismo? ANTONIETA Sim, as ideias do psicólogo bielo-russo Lev Vygotsky (1896-1934) vieram paralelamente, focadas na questão do desenvolvimento e do ensino e da aprendizagem como um processo único. Nesse contexto, são usadas formas de mediação - pelo professor, pelo colega ou pelo próprio material didático - para levar o outro a aprender.


E atualmente, como estamos? ANTONIETA Hoje, atuamos em uma era que os especialistas chamam de pós-método. Falamos em princípios e em diferentes possibilidades de implementá-los. De certo modo, para a questão da formação docente, isso complica a situacão, já que é muito mais fácil pegar uma receita e aplicá-la. Agora, dependemos da análise do professor em relação ao que fazer diante da realidade em que estão inseridos seus alunos.


O que cabe a ele, afinal? 
ANTONIETA Ele precisa dominar o contexto por meio de princípios básicos de ensino e aprendizagem que independem de metodologia. Existem alguns nos quais o professor acredita e aos quais é fiel. Se ele aposta na mediação, por exemplo, não vai exigir que a garotada repita milhares de vezes uma palavra.


Não é possível falar, portanto, em um modelo que seja mais eficaz. ANTONIETA Exatamente. Não existe um método perfeito, até porque a eficácia depende do objetivo da pessoa ao aprender um idioma. A saída agora é entender por quê, para quê, como e o que ensinar - nessa exata ordem. A primeira resposta pode ser: porque a língua confere uma formação global ao indivíduo. Para quê? Até o 9º ano, ainda não há uma certeza. Então, a formação deve ser básica para permitir direcionamentos específicos posteriores. O como vai depender dos objetivos. Só então é possível definir os conteúdos a ensinar.


É importante que esses conteúdos estejam relacionados às práticas sociais de leitura e escrita? ANTONIETA Sim. Nos Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs) de Língua Estrangeira, lançados em 1998, do qual sou coautora, recomendamos a ênfase em leitura e escrita, considerando as situações do contexto brasileiro. Fomos massacrados. Diziam que a proposta era elitista, pois excluía a possibilidade de acesso do estudante ao desenvolvimento das quatro habilidades - ler, falar, escrever e compreender. Mas como, sem preparo, o professor pode desenvolver a habilidade de fala com 50 crianças por classe em duas horas semanais? Agora, justamente as práticas de leitura e escrita aparecem como uma necessidade social.


Como levar esses dois conteúdos para a sala de aula? ANTONIETA Ligando aquilo que acontece em classe com objetos de uso da Língua Estrangeira que existem fora do ambiente escolar. Vale trabalhar com textos de jornal (disponíveis inclusive na internet), rótulos de produtos, a estampa de uma camiseta ou letras de música. Dessa forma, o professor encontra um link com os jovens.


Com o desenvolvimento de novas mídias e tecnologias, como a internet e a TV a cabo, mudam os conteúdos e a maneira de lecionar Inglês? ANTONIETA Com certeza. Existem, aliás, iniciativas muito interessantes nesse sentido, como a chamada You've Got Mail. Por meio desse programa, os professores promovem a troca de e-mails entre alunos brasileiros e de outros países. O computador é um recurso que deve ser usado para fazer tarefas que despertem o interesse dos estudantes. Usar essas novas tecnologias é outro meio de estabelecer um relação com a realidade.


Muitas escolas brasileiras ainda focam apenas a gramática e a decoreba. Como mudar isso? ANTONIETA É preciso valorizar o segundo idioma, entender qual a importância de aprendê-lo para a Educação do indivíduo - o que permite a ele entender o outro e as diferenças e estar inserido no contexto mundial atual. E também, é claro, dando formação inicial e continuada para os professores. Eles apenas repetem o que aprendem.


Quais os problemas da formação docente nessa área? ANTONIETA Primeiro, há a questão da licenciatura dupla em Português e Inglês, por exemplo. Com o repertório proporcionado pela Educação Básica, não há como dar conta das duas em tão pouco tempo. Além disso, hoje se proliferam faculdades que não têm corpo docente adequado nem desenvolvem pesquisa e dão cursos baseados na gramática. O ideal é que a graduação ofereça a prática e o uso da língua, de várias maneiras, além de formação reflexiva e não receitas.


Como os professores recém-formados chegam à escola? ANTONIETA Eles se sentem perdidos, já que a própria instituição muitas vezes desvaloriza a disciplina. Alguns se perguntam por que estão ensinando aquilo. Eles não têm noção da capacidade de inclusão que o idioma tem.


O que é essencial numa boa aula? ANTONIETA A conversação. O único momento real de comunicação se dá com ordens: abram seus livros. Em sala, continua-se falando em português e isso acontece pela falta de naturalidade com o idioma. O medo de a turma não entender não é desculpa. Senão vira um círculo vicioso. É possível usar os dois idiomas, pelo menos, ou traduzir na primeira vez que empregar determinados termos.


Que outras habilidades e conhecimentos o professor deve ter? ANTONIETA Além de ser capaz de falar na língua que leciona em sala, ele precisa escrever de maneira simples e correta sintaticamente, ler um artigo e entender falantes nativos - que não devem ser encarados como modelo, nem em relação à pronúncia. Mesmo porque essa ideia está superada hoje pela falta de fronteiras proporcionada pelo avanço da tecnologia e por causa da expansão do inglês. Afinal, quem é o falante, nesse caso, uma vez que os não-nativos superam absolutamente os que o têm como primeira língua? O princípio é se comunicar de forma correta e compreensível.


O que a formação continuada pode oferecer ao docente da área? ANTONIETA Ele precisa estar preparado para se enxergar e atuar como um pesquisador da própria prática. A reflexão proporciona isso a ele. Um dos grandes problemas do professor é a solidão. Muitas vezes, ele não tem colegas com quem trocar experiências na escola. Por isso, é importante estar sempre alerta para oportunidades em centros de recursos e usar a internet para pesquisar e travar contato com o idioma.


Qual o currículo do programa de Educação continuada para professores de IngIês do qual a senhora participa? ANTONIETA No programa para formação gratuita de professores da PUC, em parceria com a Cultura Inglesa, os educadores primeiro têm aulas de aperfeiçoamento linguístico. Terminada essa etapa, eles fazem um curso de extensão chamado Reflexão Sobre a Ação, durante o qual gravam suas aulas e analisam o que funcionou ou não. Além de estudarem os aspectos didáticos (a organização do sistema fonológico do inglês, a relação com textos etc.), refletem sobre questões da prática em sala de aula. Depois, eles preparam unidades didáticas e testam esse material nas escolas em que trabalham porque a intenção é multiplicar a formação pelas escolas.


Como a rede pública encara o ensino de um segundo idioma? ANTONIETA Como uma das últimas preocupações. Não há meios para que ele avance porque não existe uma política nacional para a disciplina. Isso é resultado da exclusão da Língua Estrangeira do núcleo comum na Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB), de 1961. Na época, ela passou a ser tratada como atividade. Depois, a LDB de 1996 menciona "uma Língua Estrangeira". A escolha é da escola. Independentemente disso, um decreto do governo, de 2005, estabeleceu a obrigatoriedade de a escola se oferecer o Espanhol, apesar de ele ser optativo para os alunos. Só que na prática não acontece nada. Mesmo porque ainda não existem professores suficientes para preencher essas vagas.


Que resultados os estudantes colheriam se as aulas de um segundo idioma fossem priorizadas? 
ANTONIETA Eles passariam a entender as diferenças e a conviver melhor com elas. Aprende-se isso por meio do contato com outras culturas. No aspecto social, temos as questões do acesso ao mercado de trabalho e da inclusão e da participação do sujeito no mundo. Hoje, quem não tem um nível de inglês que permita entrar nessa grande roda está excluído. Bom ou ruim, esse é um fato.