sábado, 30 de junho de 2012

Cuidar das línguas

Contato
José Carlos Paes de Almeida Filho 
(
jcpaes@unb.br)




Na sociedade ainda tão desigual (em ênfase e propósitos) em que vivemos consideramos culturalmente importante prepararmo-nos para transitar nos círculos de outras línguas. Fazemos isso aprendendo as línguas de onde queremos circular ou aprendendo línguas-coringa que nos permitem atravessar zonas estrangeiras de muitas línguas distintas. Travessias geográficas e digitais, bem entendido. Para generalizar, enquanto povo, em geral, gostamos de estrangeiros e de coisas estrangeiras. A escolha de uma nova língua para chamar de nossa costuma recair sobre aquelas de maior prestígio, propulsoras de oportunidades, de produção de cultura importante, enfim, línguas de alta milhagem (de ampla circulação) que fazem render muito o esforço e o investimento empenhados na sua aprendizagem. Os idiomas nos impulsionam a celebrar novas relações internacionais.
A situação problemática é a relação dos brasileiros com o inglês. Essa é profusamente matizada desde o amor de entrega inconteste até a repulsa consciente passando pela ideológica não-reconhecida. Trata-se de um caso especial de uma língua hegemônica associada com frequência ao fenômeno do neoimperialismo que as potências anglófonas podem alegadamente exercitar. Essa relação de amor e ódio pode afetar as pessoas, o establishment escolar e universitário preparador de profissionais na área e as políticas públicas governamentais. Essa língua de perigo e êxtase pode ser apresentada sem suas culturas de raiz para abrandar-lhe o veneno (como se possível fosse desembaraçar um idioma de sua base cultural) ou com uma cultura a que poderíamos nos entregar como a um doce vampiro. Vãs polaridades!
Quem de nós fala alguma variante aceitável do Português (além do Nhengatu, claro) sabe que a língua nacional vai longe além fronteiras, mas tem limites. Vai a 8 países da Comunidade de Países de Língua Portuguesa (CPLP) e, crescentemente, a muitas regiões do globo contendo o Português como língua de escolha, como língua de oferta escolar e como língua de herança ou de imigração. Mas não está em todo o globo e nem disseminada em todos os países.
A primeira lição para cair no mundo seria, portanto, “aprenda outras línguas”. O inglês tem sido uma aposta frequente aqui e ao redor do planeta – mas essa é só uma estratégia robusta do que temos de aprender para circular no globo e estar na rede mundial de comunicação. Estou reconhecendo que outras línguas nos servem bem para o protagonismo planetário que os brasileiros perseguem, mas para termos futuro como nação precisamos primeiro valorizar e tornar disponível para ser aprendida/vivenciada a nossa própria língua e cultura(s). O Português pode, sim, alçar voo à galáxia das línguas internacionais de cultura e de ampla circulação. Para isso temos de fazer a lição de casa: criar mentalidade própria que valorize a aprendizagem de nossa língua por estrangeiros cá e lá, e criar um aparato que sustente as ações de inserção do Português no mundo. O Brasil tem um largo potencial para alavancar o Português a esferas nunca dantes visitadas, mas precisa de políticas bem pensadas e coordenadas. Para que as outras línguas sejam aprendidas com um mínimo de sucesso no nosso sistema escolar urge também implantar uma verdadeira política de ensino de línguas de longo prazo. Dela quero mostrar os contornos em nosso próximo encontro. Até lá, leitores!